Amor patológico

08:00:00 Thais Lopes Trajano 2 Comments

É amor ou dependência?


Vemos em nosso dia a dia amigos, familiares ou conhecidos envolvidos em relacionamentos que julgamos complicados e até mesmo prejudiciais. É comum ouvirmos dessas pessoas que elas amam demais o parceiro, que não conseguem viver sem ele. Percebemos um afastamento dos programas que antes eram eventuais e ficamos com aquela impressão de que aquele amigo(a) faz tudo o que o parceiro quer. Pois é, alguns desses casos podem ser patológicos.

Vivemos em uma sociedade em que o amor foi venerado ao longo do tempo. Quantas músicas e poemas não tem o amor como tema? O amor chegou à atualidade como símbolo de servidão, sofrimento, mas essencial à vida. Quem se imagina aos 90 anos sem um parceiro que possa amar e dividir as lembranças de uma vida a dois?

Acho que praticamente ninguém!

Este é um fator que mantém o amor patológico em posição de pouco estudo e conhecimento. Apenas a falta de amor é estudada e vista como prejudicial, mas o excesso de amor infelizmente não.


Entendendo o amor patológico



Obviamente cada ser se relaciona e ama de um jeito único, o objetivo aqui é tentar entender a fronteira entre o funcional e disfuncional.

Normalmente as relações em que um dos parceiros sofre de amor patológico são percebidas de forma desigual. Atitudes comuns em casos de amor patológico e que facilitam seu diagnóstico são:

·        Sinais e sintomas de abstinência quando longe do parceiro (física ou emocionalmente), assim como mediante as ameaças de abandono ou rompimento da relação;
·        O indivíduo cuida mais da vida do amado do que gostaria. Esse cuidado é percebido como excessivo;
·        As tentativas de coibir as atitudes patológicas são mal sucedidas;
·         Muito tempo é gasto para controlar a vida do parceiro e mantê-lo próximo, sob controle;
·        As atividades que antes da relação eram prazerosas são deixadas de lado e o indivíduo passa a viver em função do parceiro;
·        Os comportamentos patológicos são mantidos, mesmo com a consciência de que é prejudicial e que cause interferências em outras áreas da vida como a profissional;

Em complemento ao exposto acima, no amor patológico, o ser amado deixa de ser uma parte da vida do indivíduo e se torna a própria vida.

Base de apoio: Teoria do Apego (John Bowlby)



A forma como descrevo e falo do amor patológico neste artigo se fundamenta na Teoria do Apego de John Bowlby.
Ele fundamenta que a maneira como o indivíduo se relaciona quando adulto está diretamente ligada à relação que este constituiu com sua principal figura de apego durante a infância. Ou seja, um vínculo mal formado durante o período de infância, poderá acarretar prejuízos nos relacionamentos da vida adulta.
 Esta figura de apego a que me refiro poderá ser a mãe, ou alguma figura próxima que exerça o papel de cuidador.

Você deve estar se perguntando como é que uma relação influencia a outra. Estou certa?
Pois bem, existem 3 diferentes maneiras de formação de vínculo na infância e cada uma poderá deixar um diferente traço na personalidade do indivíduo.
 A primeira é o apego seguro, no qual o indivíduo recebe os cuidados e apoios de que necessita quando criança e cresce com a capacidade de reconhecer figuras que lhe proporcionem apoio pessoal e de se relacionar sem prejuízos.
A segunda é o apego inseguro ou rejeitador, no qual quando criança o indivíduo fora rejeitado ou não recebera apoio de sua figura de apego. Neste caso, quando adulto, é possível que o indivíduo procure ser emocionalmente autossuficiente e sinta-se mais a vontade para exercer trabalhos solitários.
O terceiro tipo de apego chama-se apego ansiosoambivalente e é o que está relacionado ao amor patológico. Se caracteriza pela oscilação da figura de apego quanto a sua disponibilidade em dar sustentação e segurança para a criança, sendo a relação marcada de ausências ou chantagens como forma de controle. Esse vínculo mal formado faz com que na vida adulta o indivíduo tenha dificuldades em perceber a disponibilidade e segurança que o outro pode proporcionar. O sentimento geral é de insegurança e medo de abandono.


Esclarecimento importante!

Embora Bowlby tenha encontrado conexão entre a relação da criança com sua figura de apego e a forma de se estabelecer vínculo na vida adulta, não falo aqui de uma relação causa e efeito. Outros muitos fatores que poderão influenciar nossas escolhas e emoções ao longo da vida deverão ser considerados.

Curiosidades

Muitos pesquisadores defendem que o amor patológico se assemelha a dependência química pelas reações de abstinência ligadas a ausência do parceiro.
 Alguns estudos relacionam o amor disfuncional ao Transtorno Obsessivo-compulsivo (TOC), por perceber reações químicas similares no cérebro de pessoas diagnosticadas com TOC e pessoas que sofrem de amor patológico. Ambas apresentam alterações de comportamento que produz pensamentos de medo e ansiedade de forma persistente.

Me identifiquei! Identifiquei um amigo! O que fazer?


Existem muitas abordagens na psicologia que podem auxiliar através de psicoterapia, individual ou em grupo, ao indivíduo que apresenta comportamentos de amor patológico ou se encontra em relacionamento disfuncional. Alguns grupos de apoio como o MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas) ou DASA (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos) auxiliam na percepção e reconhecimento do comportamento patológico e faz com que os participantes somem forças em busca de mudança, tendo o entendimento de seus comportamentos como ponto de partida.
 O mais importante é que pessoas que se percebam em situação de amor ou relacionamentos disfuncionais procurem ajuda e logo! É comum que os indivíduos que vivenciam o amor patológico só busquem ajuda quando existem grandes rachaduras em seu relacionamento e buscam essa ajuda como forma de reconquistar o parceiro. No entanto, o foco de cuidado não é o relacionamento atual do indivíduo e sim a forma de se relacionar. Pois o objetivo é que o indivíduo seja capaz de se relacionar de maneira recíproca, plena e saudável.

Me despeço citando um pequeno pedaço de um poema da Psicóloga Maria Beatriz Marinho dos Anjos para reflexão:

“Então o amor é isso...

Não prende, não escraviza, não aperta, não sufoca.

Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço.”






Ref. Bibliográfica:

SOPHIA, Eglacy Cristina. Amor patológico: aspectos clínicos e de personalidade. 2008. Dissertação (Mestrado em Psiquiatria) - Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, 2008. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5142/tde-11022009-162136/pt-br.php> . Acesso em: 28-09-2015 


RODRIGUES, Soraia & CHALHUB, Anderson. Amor com dependência: Um olhar sobre a teoria do apego. 2009. Trabalho de graduação (Graduação em Psicologia) - Centro Universitário Jorge Amado. Brasil, 2009. Disponível em: <http://www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0155.pdf> . Acesso em: 28-09-2015.







2 comentários:

  1. Respostas
    1. Perla, obrigada pelo apoio! O LàR está muito grato a todo carinho. Caso desejar, você pode curtir nossa fanpage no Facebook e compartilhar nossos textos.

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