A vida sob prescrição médica

01:00:00 Sidney Ferreira 0 Comments

A singularidade do sujeito desaparece por trás do critério normativo de cura.

                               
Atualmente, o DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), apelidado de “Bíblia da Psiquiatria”, tem provocado muitas discussões por causa dos inúmeros e novos transtornos mentais nele contidos e sobre o aumento do uso de medicamentos a partir do seu lançamento. Aqui vamos dialogar sobre dois dos transtornos mentais contidos no DSM-V contrapondo com a visão de Freud em seu livro “O Mal-estar na civilização”.

Dois transtornos, uma visão.




Transtorno Disruptivo de Desregulação  do Humor – Este diagnóstico é dado a crianças e jovens de até 18 anos que apresentem, pelo menos, 3 vezes por semana durante um ano ou mais, características como irritabilidade persistente e episódios frequentes de extremo descontrole comportamental. Esse transtorno foi criado para evitar que crianças e adolescentes fossem diagnosticados com Transtorno Bipolar. Allen Frances, um dos autores do DSM-IV, ressalta: “Meu temor é que crianças normais com ataques de birra sejam diagnosticadas equivocadamente e recebam medicação inapropriada!”

Transtorno Disfórico Pré-Menstrual – Os sintomas deste transtorno são: tensão, alteração de humor, irritabilidade, ansiedade, raiva, tristeza, entre outros. Estes se manifestariam nas últimas duas semanas do ciclo menstrual dentre a maioria dos ciclos no decorrer do último ano, segundo a Associação Americana de Psiquiatria. Allen Francês novamente enfatiza que este novo transtorno é dos piores e promete um abalo sísmico na Psiquiatria que, segundo ele, “pode fazer com que grande parte da população seja considerada erradamente doente, ao definir que pessoas com queixas físicas como cansaço ou dores e que indiciem que lidam mal com isso possam ser diagnosticadas com esse novo distúrbio.

Essa pequena exposição mostra que esse manual é feito pelos norte-americanos e o restante do mundo deve obedece-lo cegamente. Estranho, não?!

Em 1930, Freud, psicanalista austríaco e pai da Psicanálise, publica “O Mal-estar na Civilização” e nesse texto ele mostra no capítulo dois que há substâncias de fora do corpo que, uma vez presentes no sangue e nos tecidos, são capazes de produzir sensações imediatas de prazer, e também mudam de tal forma as condições de sensibilidade, que aqueles que as utilizam se tornam incapazes de acolher impulsos desprazerosos.

Neste mesmo capítulo, Freud chama esses medicamentos de “Afasta-tristeza”:
“Sabe-se que, com ajuda do ‘afasta tristeza’, podemos nos subtrair da pressão da realidade a qualquer momento e encontrar refúgio num mundo próprio que tenha melhores condições de sensibilidade. É notório que justamente essa característica dos entorpecentes determina o seu perigo e nocividade. Em algumas circunstâncias eles  são culpados pelo desperdício de grandes quantidades de energia que poderiam ser usadas na melhoria da sorte humana!” 

Os transtornos, medicação e sociedade.



Sendo assim, utilizo a contribuição de Freud para ilustrar que a intenção da indústria farmacêutica é de tentar controlar a sociedade a qualquer custo convencendo-a de estar doente. A partir dessa empreitada capitalista, a população mundial ou, pelo menos, boa parte dela, vai pensar que necessita de medicamentos para viver melhor.

Existe um filme chamado “O Doador de Memórias” que retrata bem o que quero dizer. Este filme se passa numa sociedade futurista na qual todas as pessoas se medicam diariamente e são monitoradas pelos chamados “Anciãos”. Esse povo não faz sexo, nem festas, muito menos se beijam. Todas as características inerentes ao ser humano foram reprimidas pelos efeitos medicamentosos de uma cultura baseada no controle, já que esta acredita que é perigoso viver sob a inconstância humana e acha que os sentimentos são prejudiciais.

Agora lhes pergunto: É essa sociedade desejada por vocês?! Uma sociedade sem guerras, nem tristezas, mas também sem amor, sem carinho, nem reciprocidade. A inconstância faz parte da vida. A grande questão é aprender a viver com ela.

Dessa forma, nessas últimas linhas não posso deixar de citar Joyce Mcdougall, psicanalista australiana, que afirma em seu livro “Em defesa de uma certa anormalidade”: “Normalidade demais é doença, é patologia!”. Seguindo o mesmo pensamento, me apresento como um “Defensor de uma certa anormalidade”.  

Referência bibliográfica:
Freud, S. O mal-estar na civilização, 1930 [1929]

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