Violência vicia?

01:00:00 Leonardo Maggioni 0 Comments


Mãos ao alto!! Calma, não é nada disso que pode estar pensando, por hora só pretendo roubar sua atenção. Apenas largue a barra de rolamento e leia atentamente a advertência a seguir.

Advertência!

Você que está lendo esse texto. Não sei o motivo de sua visita ao blog. Se você supõe que aqui serão apresentadas soluções instantâneas para a solução dos problemas do mundo. Não se precipite. A intenção aqui é colocar mais dúvidas na cabeça do leitor. Portanto se não tem apreço pela interrogação, esse texto não atende a suas expectativas. Não perca mais tempo feche a page, talvez a próxima “aba” atenda sua expectativa por certezas.

Queridxs leitores. Proponho uma reflexão. Sobre a violência que diariamente nos deparamos nos diversos meios de comunicação com uma infinidade de notícias retratando uma parte dos acontecimentos das grandes cidades, diariamente chegam das redações dos jornais centenas de histórias que se propõem (ou não) a manter o telespectador/leitor bem informado.
A questão para reflexão aqui é qual o reflexo na construção de representações sociais e seus efeitos, a partir da massificação de noticiários banhados a sangue.

Luto e audiência



Violência vende? Parece que no Brasil sim. Investir no terror parece ser um grande negócio. Jornais populares, programas dedicados aos casos policiais são um prato cheio para quem anseia controlar a população através do medo, com manchetes criativas e apresentadores que usam bordões e discursos inconsequentes aliadas a atuações dignas de Fernanda Montenegro, clamam pela paz, exaltando (e lucrando) o medo. 


É impossível passar os olhos por qualquer jornal, de qualquer dia, mês ou ano, sem descobrir em todas as linhas os traços mais pavorosos da perversidade humana [...] Qualquer jornal, da primeira à última linha, nada mais é do que um tecido de horrores. Guerras, crimes, roubos, linchamentos, torturas, as façanhas malignas dos príncipes, das nações, de indivíduos particulares; uma orgia de atrocidade universal. E é com este aperitivo abominável que o homem civilizado rega o seu repasto matinal. (Baudelaire, 1860, citado por Sontag, 2003, p. 89-90).

Pobreza é crime




Nessa equação, podemos notar uma diferença na fala/escrita geralmente usada no momento de vincular o autor da ação ao ato, o adjetivo usado no texto vai depender do CEP da residência e da cor da pele do protagonista da história. Fazendo uma grande ligação entre pobreza e o perigo em seu discurso, parece ser interessante associar o pobre e negro a violência, tratando como “culpado” antes de qualquer análise dos fatos, entretanto se o “vilão” for de capital financeiro elevado é tratado como “acusado”. Ao distinguir as pessoas e seus atos na apuração, construção e divulgação da notícia, parece haver uma criminalização da pobreza.

Estado de Medo




Como efeitos do sensacionalismo usados por algumas redações temos uma segregação desumana e reducionista, que ajudam a construir a ideia de que a favela é um lugar perigoso e o morador igualmente evitável, limitando os lugares e os indivíduos, onde as pessoas de “fora” evitam ir e os moradores de outros lugares não desejam a presença do pobre no seu bairro (salvo se for para limpar seus banheiros ou servir seu café), criando um medo onipresente, limitando a circulação pela cidade e investindo em mecanismos que passam uma (falsa?) sensação de segurança, grades por todos os lados, câmeras de monitoramento, carros blindados etc.

“O medo é reconhecidamente o mais sinistro dos demônios que se aninham nas sociedades abertas da nossa época. Mas é a insegurança do presente e a incerteza do futuro que produzem e alimentam o medo mais apavorante e menos tolerável. Essa insegurança e essa incerteza, por sua vez, nascem de um sentimento de impotência: parecemos não estar mais no controle, seja individual, separada ou coletivamente, e, para piorar ainda mais as coisas, faltam-nos as ferramentas que possibilitariam alcançar a política a um nível em que o poder já se estabeleceu, capacitando-nos assim a recuperar e reaver o controle sobre as forças que dão forma à condição que compartilhamos, enquanto estabelecem o âmbito de nossas possibilidades e os limites à nossa liberdade de escolha: um controle que agora escapou ou foi arrancado de nossas mãos. O demônio do medo não será exorcizado até encontrarmos (ou, mais precisamente, construirmos) tais ferramentas” (BAUMAN, 2007: 32).

Ah todo dia é assim! Espreme que sai mais sangue!!



As constantes exposições a situações violentas resultam na banalização e naturalização diante de algum ato violento (física ou simbólica). Sendo caracterizado de forma legitima na resolução de conflitos, tornando o indivíduo inerte e conformado com a situação. Essa legitimação se revela quando vemos comemoração quando policial atira no moleque na favela (e vice-versa), quando agridem por divergência religiosa, política e ideológica. Quando compartilhamos nas redes sociais e achamos graça aquele vídeo bem sangrento. Situações que permeiam o senso comum como tolerável e comum. Pesquisa recente do Datafolha revela que metade do país acha que “bandido bom é bandido morto”. Somente uma sociedade profundamente adoecida, pode acreditar que a solução para os problemas da violência e a própria violência.

Censurar? Acho que não.




É obvio que o papel na impressa na cobertura dos fatos tem seu papel importante na vida da sociedade. O que me intriga nessa discussão é o porquê dedicar grande parte da programação a notícias ruim? Será que não tem nada de bom na cidade que mereça destaque? Não tem nada de importante acontecendo na favela? A imprensa com o poder que tem, poderia auxiliar na desconstrução de estereótipos e não reforçar diariamente. A imprensa por natureza é formadora de opinião, ao explorar a violência de forma parcial ela impede que o cidadão forme sua própria opinião sobre os fatos, levando a acreditar e reproduzir o discurso que melhor lhe cabe.

Muito além.



A violência deve ser tratada como um grave problema de nossas cidades e não como mercadoria, a importância de políticas sociais que promovam acesso de todxs, podem e devem ser cobradas e promovidas pelos grandes meios de comunicação, para que no futuro esses personagens não apareçam somente no noticiário policial. Claro que as ausências de programas sociais não devem ser usadas como muletas para justificar o delito e inocentar o indivíduo que cometeu o crime, mas explorar somente esse lado da cidade, reduzindo as pessoas me parece ser tão violento quanto qualquer ato.
A televisão em especial nos últimos anos evoluiu muito, deixamos de ter aqueles aparelhos de tubo e temos LCD, LED, Plasma todas com designs e funções atrativas. Mas tenho uma pergunta. E a programação evolui quando?
Finalizo o texto com a frase da música “versos vegetarianos” do grupo paulistano Inquérito que diz.

 “Cansei de telejornal, de sangue, carne espirrando 
Pensei em fazer uns versos vegetarianos”
Ref. Bibliográfica:


SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2003. 112 p.

BAUMAN, Zygmund. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 2007 

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