Fenômeno Bullying - Porque quando fere o outro já deixou de ser brincadeira

01:00:00 Thais Lopes Trajano 0 Comments


A célebre frase “O bullying sempre existiu, mas agora dizem que tudo é bullying” é comum de ouvir por aí, certo? 
E até certo ponto, sou obrigada a concordar. O bullying sempre existiu nas escolas. O que é novidade então?
Os estudos sobre os efeitos, muitas vezes devastadores, de quem sofre o bullying. Isso é novo!
São estudos e discussões de décadas passadas até hoje, nós já evoluímos, mas ainda é preciso percorrer um longo caminho para evitar, e porque não, erradicar este fenômeno das relações interpessoais.

 O que é?
O bullying se caracteriza por comportamentos agressivos intencionais que são repetidamente dirigidos a pessoas que se encontram impossibilitadas de reagir frente às agressões sofridas.

A nomenclatura Bullying refere-se a violência no âmbito escolar, tendo por exemplo, no Brasil, a nomenclatura mobbing para violência e assédio moral no âmbito laboral. Aqui falarei principalmente do bullying escolar, considerando também seus impactos que muito ultrapassam os muros da escola.

Embora o comportamento agressivo do bullying não tenha razões justificáveis, a escolha da vítima não é aleatória. Os agressores, que se percebem mais fortes, buscam pessoas que julgam mais fracas para os ataques. Ao falar forte e fraco, não me refiro apenas a estrutura física, podemos levar em conta o grau de participação e importância nas relações interpessoais e características que diferenciem a vítima dos demais. Um bom exemplo são pessoas tímidas que interagem pouco, pessoas magras demais ou acima do peso e assim por diante.

Tipos de agressão
Falamos acima dos ‘ataques’ às vítimas, mas que ataques são esses?
Existem muitas formas de violentar ou desqualificar uma pessoa. Veja abaixo os tipos de bullying existentes:
·         Verbal (xingar, insultar, ofender, piadas e apelidos ofensivos e aqui também entra a famosa e ‘natural’ zoação);
·         Físico e material (violências físicas das mais diversas como bater, chutar, empurrar, dentre outros. Além disto, furtos e danos a qualquer tipo de objeto pertencente à vítima);
·         Psicológico e moral (Irritar, isolar, ridicularizar, fofocas e intrigas, chantagear, discriminar, perseguir, difamar, dentre vários outros);
·         Sexual (assediar, violentar);
·         Virtual (humilhar, constranger e difamar fazendo uso de ferramentas virtuais) – Teremos um tópico somente para este tema!

Personagens envolvidos
Estudiosos apontam os seguintes personagens envolvidos em casos de bullying.
·         Vítima típica – Trata-se de pessoas que de alguma forma se mostram vulneráveis física, psíquica ou emocionalmente. Normalmente são pessoas que de alguma forma são consideradas desviantes ao padrão normativo imposto por determinado grupo.
·         Vítima provocadora – Trata-se de pessoas que atraem a atenção dos conflitos para si e muitas vezes levam a culpa pelas confusões causadas pelos agressores; isso porque a vítima provocadora busca revidar os ataques e perseguições, ainda que saia perdendo nesses conflitos. Normalmente são imaturos e donos de hábitos irritantes.
·         Vítima agressora – Trata-se de vítimas de bullying que repassam as agressões sofridas para pessoas ainda mais frágeis ou vulneráveis. Comumente se apóiam no famoso dito popular “bateu, levou”.
·         Agressor – Trata-se do que os estudiosos chamam de ‘bullies’ – os agressores. Podendo agir individualmente ou em grupo, os bullies normalmente são oriundos de lares desestruturados e apresentam em sua personalidade dificuldade em lidar com normas e regras, além de pouca empatia. Sentem a necessidade de estar no controle e possuem baixa resistência à frustração o que o que os torna ainda mais agressivos quando contrariados.
·         Espectador – Trata-se dos que não se envolvem nos ataques às vítimas, mas os presenciam. Neste grupo teremos diferentes perfis, dentre eles: os que não se envolvem por medo de se tornarem vítimas, os que não agem, mas divertem-se com as agressões, os que já vivenciam uma realidade violenta em casa ou no bairro e que acabam por enxergar a violência como algo natural, etc.

Novo fenômeno – ciberbullying ou bullying virtual
Em meio a tantas agressões já vivenciadas em ambiente comum entre agressor e vítima, o avanço tecnológico e das mídias sociais contribuiu para uma nova forma de ataques dos bullies. 
Os ataques via rede têm tomado proporções ainda maiores, com efeitos consequentemente maiores.
 Como funciona?
Imagens e vídeos constrangedores, boatos, ‘memes’ e etc são divulgados de forma a difamar e ridicularizar a vítima.

O objetivo não é diferente do bullying dito ‘normal’, mas com o cyberbullying o alcance das informações se torna muito maior. Segue um exemplo para ilustrar.

Se antigamente para ridicularizar uma vítima os bullies colocavam imagens da pessoa presas em árvores da escola e passavam ‘fofocas’ por papelzinho durante as aulas, agora com uma pequena publicação em mídias sociais como facebook, instagram, o material se torna público e em questão de poucos minutos toma uma proporção gigantesca. Muitas outras pessoas conseguem ter acesso a informação ou imagem/vídeo. A ação extrapola, por exemplo, os muros da escola.

Aproveito para lembrar que é praticamente impossível prever até onde uma informação na rede pode chegar. Isso faz com que os danos causados e o sofrimento da vítima tomem efeito multiplicador.

Outro aspecto importante e preocupante no bullying virtual é o anonimato do agressor. Quando os ataques se dão no plano real é possível que a vítima, ainda que não esteja ou se sinta em posição de reagir aos ataques, conheça seu agressor; na internet não!
Muitos bullies utilizam nomes e perfis falsos para arquitetar os ataques – são os chamados perfis fake.

Curiosidade
Os ataques às vítimas costumam ser um combinado de diferentes modalidades, reunindo ataques verbais dos mais variados; furto e destruição de materiais; violências físicas; intrigas e isolamento da vítima; perseguição e ‘zoação’ via rede. Essa reunião de ataques acaba por cercar a vítima de todos os lados, a conduzindo para uma grande de exclusão e isolamento social.

Efeitos
Todos os envolvidos, direta ou indiretamente em situações de bullying terão em suas vidas impactos decorrentes do fenômeno.

Dentre eles, a vítima comumente é a mais afetada. Em alguns casos, dependendo dos fatores de proteção (suporte familiar, idéia que possui de si, etc) a vítima poderá superar os traumas vividos por conta própria.
 Nos casos em que a superação não acontece, a vítima pode ter prejuízos em seus relacionamentos interpessoais como forma de evitar novos traumas, o desenvolvimento de transtornos psicológicos em decorrência dos traumas vividos, reações psicossomáticas. No geral, os efeitos negativos são vivenciados para muito além do período em que os ataques ocorreram.
Os agressores sentem-se em situação de poder e sobreposição ao outro e as regras. Isto em longo prazo poderá influenciar negativamente o comportamento do bullie, pois a lição aprendida nas agressões é que a violência é um bom caminho de se conseguir o que deseja, podendo inclusive, fazer com que esse jovem trilhe um caminho delinqüente, infringindo regras.
Por fim, os expectadores, ou seja, os que assistem os ataques também sentem-se inseguros, não só por medo de se tornarem vítimas, mas também porque o local que deveria os garantir segurança para um bom aprendizado mostra-se falho e o caráter saudável de convivência se perde.

Braços dados como caminho

Aqui não pretendo apontar soluções, mas possibilidades de caminhos, o qual todos nós podemos e devemos trilhar juntos, a fim de um ambiente saudável à nossas crianças.

Os pais podem contribuir buscando saber como anda a vida de seus filhos e os estimulando para que dividam suas experiências escolares, mantendo grande atenção nesses relatos. Isto serve para os pais da vítima e também do agressor.

Em casos de identificar o filho como vítima ou agressor é importante que se busque ajuda especializada. Sim, o agressor também necessitará de ajuda. Normalmente essas crianças reproduzem o modelo educativo que recebem, ou seja, a violência é presente em seu lar, sua realidade. Outra possibilidade é com o comportamento agressivo chamar a atenção. Por vezes, essa é a forma como a criança consegue pedir ajuda. 
Reforço que, tanto agressor quanto vítima, poderão estar fragilizados e até mesmo adoecidos. Ambos precisarão de cuidados. 

 No caso dos vitimados é muito importante que os pais não incentivem que os filhos revidem os ataques. E que os pais busquem a escola. Se não atendidos adequadamente pela escola, é possível ainda procurar diretamente o Conselho Tutelar.

Os professores também devem se manter atentos a casos de violência na escola e juntamente à direção buscar algum dos programas antibullying nas escolas.

Nestes programas é crucial que todos participem: pais, educadores, escola, estudantes. Mas as participações não se encerram nos programas, todos nós em algum momento podemos fazer a diferença.

Para me despedir, deixo um vídeo para reflexão.

E se fosse você sentado aí ao lado?


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