Uma discussão sobre adolescentes

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Nossa convidada de hoje escreve esse texto para reflexão, ela se apresenta como:

 Juliana Rangel Sabatini, nascida no Rio de Janeiro, psicóloga, gestalt-terapeuta e orientadora profissional. Atendo de crianças a idosos, além casal e família. Trabalho com orientação profissional e reorientação de carreira. Gosto de temas que articulam arte com psicoterapia, principalmente quando se trata do teatro. Atualmente, atendo em consultório no Centro do Rio.


"Prefiro ser essa metamorfose ambulanteDo que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”(Metamorfose Ambulante - Raul Seixas)
Atualmente, quando se fala de adolescentes, grande parte das pessoas se refere a um período de rebeldia sem causa, mudanças de humor, dificuldade no relacionamento com os pais, enfim, costuma-se associar este período da vida a diversas situações negativas.

Será que foi sempre assim?
De fato, o que sem tem hoje é a adolescência como uma fase da vida compreendida entre a infância e a idade adulta.

Entretanto, você sabia que a adolescência nem sempre existiu? Dados históricos mostram que ela é “contemporânea ao surgimento da sociedade moderna industrial” (Baroncelli, 2012, p.189), assim como sua construção histórica se relaciona ao desenvolvimento cientifico sobre o prolongamento da vida. Isto é, precisou-se prolongar o tempo de formação dos jovens para prepará-los para a industrialização crescente e ocorreu um aumento do número de adultos jovens em idade de trabalho, contudo fora deste.

É neste contexto histórico que se constrói o conceito de adolescência como o temos hoje. Aquele que antes saía da infância direto para o mercado de trabalho ou para o casamento, não dependendo mais de seus pais, passa a ficar mais tempo na escola, embora em idade para trabalhar, e, como consequência, mais tempo sob a tutela dos pais. Assim, o jovem se vê distante do mercado de trabalho e, consequentemente, da possibilidade de ter autonomia e condições para seu próprio sustento. A partir daí, desenvolve-se um novo modo de relacionamento tanto com os pais quanto com a vida em geral.

Novo quadro se instala, o jovem passa a ter outras preocupações e expectativas, ambas relacionadas ao “o que ser quando crescer”. Questões que antes não existiam, passam a fazer parte tanto do imaginário quanto da vida real desse ser. E assim, temos a Adolescência.



O que falar sobre esta fase da vida?
Bom, existem muitas teorias sobre o assunto.
Dentre estas, destaca-se a psicanálise, que tem como precursor Sigmund Freud, para o qual esta fase se dá por uma crise, que se caraterizada por algumas perdas: do corpo e da identidade infantis e dos pais da infância. Neste caso, proporcionando ao indivíduo novas construções acerca de sua identidade.  Ocorre também o despertar da sexualidade, estimulado pelo desenvolvimento genital. Há a estruturação da identidade sexual e a busca do “objeto” amoroso.

Nesta mesma ideia, temos a difusão do termo “síndrome da adolescência normal”, conceito dos autores Arminda Aberastury e Maurício Knobel em seu livro “Adolescência Normal: Um enfoque psicanalítico”, que vai dizer que existem certas características comuns a todos os adolescentes nesta fase da vida.

Outro ponto de vista podemos encontrar na Epistemologia Genética de Jean Piaget, teoria na qual o autor estabelece, dentre outros conceitos, quatro estágios do desenvolvimento cognitivo, dos quais damos destaque ao Estágio Operatório Formal, visto este se iniciar aproximadamente aos 12 anos de idade, ou seja, na fase da adolescência.
Nesta fase, Piaget observou que ocorre o desenvolvimento do raciocínio abstrato. O indivíduo já trabalha com hipóteses, consegue refletir para além do real presente e sobre possibilidades. É capaz de inferir consequências. Ocorre a formação do pensamento hipotético-dedutivo, no qual o indivíduo faz hipóteses sobre coisas em que não acredita ou ainda não acredita. Um ponto importante nessa fase está no sistema de relacionamento, onde o indivíduo que antes mantinha relações restritas à família e à escola, amplia estas à sociedade e à cultura.




Outro autor é Lev Vygotsky, criador da Psicologia Sócio Histórica. Aqui se destaca o fato de considerar o indivíduo como um ser constituído nas condições concretas de sua existência. Ou seja, ele considera o ser como ativo e histórico. Alguém que é determinado e determinante da própria condição no interior de um dado contexto. Então, o adolescente seria um indivíduo em determinada cultura e sociedade, sempre ativo dentro de uma história.

Já na visão da Teoria do Campo de Kurt Lewin, como o próprio nome sugere, temos destaque ao conceito de Campo, onde qualquer parte deste que se abale, assim se faz com todas as outras. Não há elementos separados, mas um Todo, um conjunto, onde uma parte mexe com outra parte do Campo.

Em relação à adolescência, o autor, fugindo de denominações generalizantes, resolve esta questão introduzindo o conceito de “espaço de vida psicológico”, que indica “a totalidade dos fatos que afeta o comportamento de uma pessoa num certo momento”. (Baroncelli, 2012, p.192)

Assim, embora em sua visão a adolescência seja vista como um fenômeno único para cada pessoa, algumas regularidades são apontadas por ele e estão relacionadas às transformações que ocorrem no espaço de vida do jovem:
    O campo se torna mais extenso e mais diferenciado, comparando com o espaço restrito e pouco diferenciado da infância;
    Conhece mais pessoas, mais lugares, tem acesso a mais informações, isto é, tem acesso a mais recursos cognitivos, sociais, físicos e de linguagem;


Com isto, segundo Lewin, o ambiente não é somente a totalidade dos fatos apresentados, mas inclui também a forma como a pessoa o percebe e o interpreta. E no caso do adolescente, este ambiente se amplia de todos os modos.

      Muito próxima desta ideia, temos a Gestalt-Terapia, criada por vários autores, com destaque para Fritz Perls, sob influência de teorias como a de Lewin, a fenomenologia, o existencialismo, o humanismo, entre outras.

Ela concebe o ser humano como um existente impossível de ser compreendido fora do contexto de suas relações, desde as mais elementares, com pessoas de seu convívio, até as mais amplas, com a sociedade, a história e o universo.

Partindo do conceito de Homeostase, postula que o ser humano está em constante busca de equilíbrio. Desta forma, qualquer elemento novo, provoca desequilíbrio no conjunto. Assim, o indivíduo buscará reestruturar-se novamente.



Seguindo esta ideia, a fase da adolescência, para esta abordagem, pode ser descrita da seguinte forma:
“Uma desestruturação da unidade da infância por meio da expansão do espaço de vida e da transformação dos processos de contato que organizam o campo”.(Baroncelli, 2012, p.192-193)
Deste modo, procura lembrar que esta fase é marcada pela novidade: um novo campo de possibilidades se abre ao jovem.

 A Gestalt-Terapia nos chama atenção ao fato de na análise de diversas teorias se destacarem e disseminarem ideias sobre a adolescência ser caracterizada por tormentas emocionais e crises, esquecendo-se de outros aspectos como a visão crítica, a sinceridade e até a lucidez que a chamada maturidade com frequência amortece.

      Assim, em vez de considerar determinadas características comuns a essa fase, procura dar destaque para a forma como o adolescente se relaciona com o mundo e age nele.
“Ser adolescente é, portanto, sê-lo num determinado corpo, mas também numa determinada sociedade, etnia, classe social, cultura, família e para determinada pessoa que vai significar todos estes aspectos de forma sempre únicas”. (Baroncelli, 2012, p.191)
      Ensina que “O comportamento do adolescente revela o que ele vive na escola, na família, na sociedade e na cultura. (...) ele não é adolescente sozinho”. (Baroncelli, 2012, p.195)
      Enfim, considera o indivíduo como “um ser contextualizado (ser-no-campo) e singular e, portanto, como um existente que só pode ser compreendido no interior de suas relações sempre complexas e únicas com o mundo”. (Idem)

      Portanto, precisamos sempre lembrar que, embora existam teorias que tentem explicar o adolescente e enquadrá-lo dentro de determinados conceitos,  o adolescente está inserido em um contexto social, histórico e cultural, vivenciando as situações que se ampliam a cada momento. E que a adolescência, esta fase circunscrita a partir de determinados contextos históricos, é mais uma fase pela qual se passará. Fase esta vivida de forma única por cada ser, dentro de um conjunto de situações de vida, que oferecem determinados instrumentos, que somente cabe ao próprio escolher como usar.
      E, para finalizar:  tudo está em constante mudança! Ainda bem!
  
REFERÊNCIAS:
ABERASTURY, A. ; KNOBEL, M. Adolescência Normal: Um Enfoque Psicanalítico. 2ª Edição, Ed.Artmed: 2000.
BARONCELLI, L. Adolescência: Fenômeno Singular e de Campo. In: Revista da Abordagem Gestáltica – XVIII (2): 188-196, jul-dez, 2012.
CEREZER, S. C. Desenvolvimento Infanto-Juvenil e os Desafios da Realidade Contemporânea. In: "Revista Digital da Capacitação de Candidatos a Conselheiro(a) Tutelar - Conselho Tutelar”, Março, 2009.
PÁDUA, D.G.L. A Epistemologia Genética de Jean Piaget. In: Revista FACEVV/1º Semestre de 2009/No.2/p.22-35.


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