Como falar sobre assédio sexual com as crianças?

01:00:00 LàR Livre à Reflexão 0 Comments

Desde que o programa MasterChef Júnior estreou na Rede Bandeirantes, uma das participantes, Valentina, de 12 anos, é alvo de comentários com conteúdo sexual nas redes sociais, em um aterrorizante caso pedofilia virtual.
"Não são apenas comentários nas redes sociais. É pedofilia. É assédio. É violência", alerta a jornalista Juliana de Faria, autora do projeto Think Olga, responsável pela campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio sexual em espaços públicos e finalista do Prêmio CLAUDIA 2015.


Ela, que foi assediada pela primeira vez aos 11 anos, conta que, infelizmente, este é um dado comum. "Lancei uma campanha chamada #PrimeiroAssedio e descobri que muitas mulheres também passaram por isso pela primeira vez aos 9, 10 e até aos 5 anos. Isso é lamentável e muito preocupante", diz Juliana. 

Vivemos em uma sociedade onde a cultura do estupro e a sexualização infantil estão muito presentes. "Não podemos achar que uma cantada ou um post nas redes sociais são problemas menores do que o abuso sexual em si. Tudo isso está ligado à cultura do estupro e pode ser o caminho para ele", completa.



Como abordar esse assunto com as crianças?

O psicólogo e psicanalista Luca Loccoman, especializado em atendimento infantil, dá importantes dicas de como lidar e orientar os seus filhos para essas situações.

Como explicar para a criança que ela pode ser assediada?

Interações sexuais entre crianças e adultos acontecem, na maioria esmagadora dos casos, dentro de casa, com pessoas próximas, da família, como pai, mãe, avós e tios. A familiaridade facilita a aproximação e a experiência raramente acontece com violência física (isso não quer dizer que estranhos não possam ter esses comportamentos). Observo que quando o pai, por exemplo, tem desejos incestuosos por um dos filhos, é a relação de cumplicidade entre eles que permite passar ao ato. As crianças respondem por causa da vontade de agradar os adultos. É por isso que os pequenos têm o direito de saber que isso é proibido, contra a cultura -- e que essa lei rege todos os humanos. Um jeito de fazer isso é explicar o vocabulário do parentesco, o lugar da mãe, do pai, do irmão, do filho. Essa interdição permite a diferenciação dos papéis dentro da família e vai se refletir nas relações fora de casa também. Quanto se tratar de estranhos, a tendência da criança será se afastar, evitar os toques que incomodam. Longe dos olhos dos pais, uma alternativa é ajudar os pequenos a identificar uma figura de confiança a quem possam recorrer (como a professora), caso se sintam ameaçados.

A partir de qual idade essa conversa é válida e como conduzi-la em cada fase da infância? 

Lamento que o assunto não seja abordado na escola. Os pequenos podem desobedecer aos mais velhos quando esses deixam de ser cuidadores e não se sentem mais investidos das proibições civilizatórias. Mas não aconselho a falar sobre o assunto antes dos quatro ou cinco anos, é muito cedo. O melhor é ficar de olho nessa época. Depois disso, é nosso dever prevenir as crianças, dizendo que esse tipo de interação pode ser perigoso. Sem alardes ou repreensões.

Como instruir a criança a diferenciar carinho de abuso sexual?

A minha sugestão é ouvir as crianças. Há mais de 100 anos, o criador da psicanálise, Sigmund Freud, já nos apresentava uma noção de sexualidade mais ampla, muito além da relação sexual, que envolve sensações de prazer nas trocas de afeto e está presente desde a infância. É difícil, portanto, estabelecer o limite nas relações entre pessoas próximas, ainda mais com idades diferentes. Uma simples carícia, dependendo de como acontece, é suficiente para que alguém se sinta transgredido. Os pequenos são seres capazes e com discernimento. São eles que vão nos dizer o que incomoda.

Como orientar e mediar a relação da criança e do adolescente com a internet?

Acredito que da mesma forma que os pais criam os filhos no mundo real também podem fazer no virtual. Dicas básicas: manter o computador em área comum, acompanhar o histórico, navegar ao lado da criança, optar por programas que filtram e bloqueiam determinados conteúdos, ensinar a não divulgar dados pela internet, conhecer os amigos virtuais, monitorar contas telefônicas e cartões de crédito. Não é difícil encontrar listas que ensinam como agir com os filhos nesses casos. O desafio é criar indivíduos autônomos. É papel dos pais instrumentalizá-los para fazer escolhas em vez de simplesmente proibi-las. Sugiro conversa em família para alinhar as regras de uso.

Em entrevista, o pai da Valentina afirmou que alguém lê todos os comentários antes dela. Nesse momento, a proteção deve ser mais importante do que a privacidade? A criança precisa ter privacidade (na internet ou fora dela)?

Quando uma criança é capaz de algo sozinha, o melhor é que os pais permitam. Nesse caso, ela faz o que pode arriscar. Mas os pequenos têm limites, que tem a ver com aquilo que dão conta ou não de assumir. A criança não é soberana, é o desejo dos pais que domina. Mas ela tem razão de insistir em agir por conta própria. Por isso, é importante alertarmos os filhos sobre os riscos e explicar o motivo das restrições, que, aliás, têm prazo de validade. Os pequenos confiam muito mais nos pais quando entendem que as proibições são relativas às suas capacidades e, muitas vezes, à angústia de quem é responsável por seus cuidados. É assim que, no início da vida, assinalamos os diretos e os limites.

Como incentivar que ela conte o que acontece com ela nas redes? E off-line?

Querer tornar uma criança pretensamente franca é um problema, ultrapassa os limites da educação. Seria o mesmo que tentar ter poder sobre ela, não permitindo que viva fora da vigilância dos pais. Uma pessoa inteligente não revela tudo o que faz. Ao invés de dizer que nunca se deve esconder nada do pai e da mãe, é mais indicado perguntar o que aconteceu, o que o filho queria com aquilo e o que conseguiu. Isso o ajuda a aprender a ser sincero. Cabe aos pais orientar sobre os riscos, as conquistas e implicar a criança com suas escolhas.

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