Pai não é ajudante de mãe: O cuidar dos pais na vida dos filhos.

23:59:00 Leonardo Maggioni 0 Comments

Existe alguém “mais” responsável pelo cuidado dos filhos? Acredito que não, mas a grosso modo acho que ainda faço parte de uma minoria. Vivemos numa sociedade que a todo tempo reforça a ideia da figura feminina como principal responsável pelo cuidado dos filhos. Seja na família, escola (quantos tios vemos nas escolas de educação fundamental?), ou no serviço de saúde. Essa é uma questão estrutural na cultura brasileira que tentaremos ao longo do texto refletir sobre aspectos dessa realidade.

Licença-Paternidade < Licença-Maternidade.



A começar pela lei brasileira já temos a ideia de que homens e mulheres têm papel desigual na atenção aos filhos, enquanto mulheres em alguns casos tem direito de até 6 meses de afastamento das funções profissionais, os homens tinham direito apenas a 5 dias. Tinham porque isso começa a mudar.
A presidente Dilma Rousseff sancionou em março de 2016 projeto de lei que permite a ampliação de cinco para vinte dias da licença-paternidade no país. A ampliação é válida apenas para os funcionários das empresas que fazem parte ou aderem ao Programa Empresa Cidadã. A adesão ao Programa é voluntária e as empresas contam com incentivo fiscal para a concessão da ampliação. É um avanço, mas ainda muito pouco! É preciso continuar a luta por uma licença paternidade que permita uma divisão equitativa dos cuidados das crianças, onde o pai não seja visto como figura secundaria.

Pai não é visita.


No Brasil, há uma Lei (11.108/2005) que dá à mulher o direito de ter um acompanhante durante o pré-parto, parto e pós-parto. Esta lei se aplica à rede pública de saúde e aos hospitais conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS). É importante que, em a mulher escolhendo um homem como seu acompanhante (seja ele o pai biológico da criança, o tio, amigo, namorado ou avô), que seja respeitado o direito dele estar com ela em todas as etapas incluindo a consulta pós-parto. É importante que também esteja presente para receber orientações sobre como cuidar do recém-nascido e promover a saúde sexual e reprodutiva de ambos. Embora a lei 11.108/2005 confira este direito à mulher, as maternidades têm resistência em admitir que esse acompanhante seja um homem, ainda que se trate do pai da criança. É indispensável que sejam promovidas mudanças de atitudes e práticas (pessoais e institucionais) e que, no campo das políticas públicas, sejam construídas melhores oportunidades para o envolvimento dos pais. Para o pai, este pode ser um momento especial de exercício de cuidado, favorecendo o fortalecimento de vínculos afetivos com seu filho ou filha e uma re-significação simbólica e prática da paternidade. 

Homem também engravida?


A maternidade usualmente se define pelas marcas e mudanças no corpo feminino pouco tempo depois da concepção e se estende à criação e educação de filhos e filhas, enquanto a paternidade parece só existir no momento em que o bebê nasce ou, mais tarde, quando já está crescido. Mas é preciso repensar este conceito: nem sempre isso é verdade.
Vivenciar a gravidez em parceria, compartilhar as dúvidas, enfrentar os medos, as angústias e as inquietações, com tranquilidade e esperança, são cuidados que o pai pode prestar a si e a sua companheira.
Infelizmente, em sociedades conservadoras, homens (e mulheres) são educados, desde muito cedo, para responder a modelos predeterminados (e mutuamente excludentes) do que é ser homem e do que é ser mulher. Embora os modelos variem ao longo do tempo e de cultura para cultura, os processos de socialização tendem a orientar-se pelo olhar da diferença - “ser homem é diferente de ser mulher” - e pela perspectiva da desigualdade - “ser homem é melhor que ser mulher”.


Não existe amor em SP?



A existência ou não do amor em SP é um mistério, desde o lançamento da espetacular música (Não existe amor em SP) do rapper Criolo, esse questionamento parece um mistério, tipo a existência de Deus. E até então, os paulistanos e os brasileiros se perguntam sobre a existência do tal amor. Bem... me parece que justamente no Estado que questionou o amor, surgiu em 2007, que hoje está em diversas cidades do país uma prova que nem tudo está perdido.

A Cidade de Ribeirão Preto (SP) foi pioneira em um projeto que incluem os pais no pré-natal, a iniciativa é uma oportunidade para que os homens cuidem da própria saúde ao mesmo tempo em que acompanham a gestação das parceiras, por meio da realização de exames de rotina, de testes rápidos, da atualização da carteira vacinal e da participação nas atividades educativas nos serviços de saúde. A iniciativa além de mostrar ao homem a importância do cuidado da saúde, tem como foco também preparar o homem para o exercício da paternidade ativa. A estratégia incentiva o apoio à parceira durante toda a gestação, além dos cuidados básicos com o neném. Com essa mudança, os pais que antes não podiam entrar nos consultórios no pré-natal agora podem participar de cada momento nas redes públicas.

Responsabilidade de todxs.


A ideia de homens como cuidadores ainda é uma questão cultural e um grande desafio para a promoção da paternidade. Segundo Marcos Nascimento, do Instituto Fernandes Figueira. “Um dos grandes desafios para a promoção da paternidade é a gente desnaturalizar esse tema do cuidado, observar que cuidado não é inerente à pessoa mas que se aprende a fazer, e educar meninas e meninos para serem cuidadores. Culturalmente a gente vê as mulheres muito mais envolvidas no cuidado, mas isso não quer dizer que os homens sejam incapazes ou incapacitados para cuidar”.
Precisamos estar continuamente atentos e atentas para não reforçar preconceitos e estereótipos por meio dos nossos atos e palavras. Ao definirmos “cuidado” com base no referencial feminino, muitas vezes dizemos que os homens não cuidam ou não sabem cuidar. Práticas cotidianas como levar as crianças à escola, acompanhá-las durante as refeições ou mesmo contar uma estória antes delas dormirem, se desempenhadas por uma mulher, no senso comum podem ser entendidas como cuidado (ou devoção) ao contrário, se desempenhadas por um homem, podem ser vistas como dever, obrigação. Para construirmos uma sociedade mais justa, é preciso romper com padrões culturais machistas e preconceituosos que estão fortemente presentes na linguagem comum e nas práticas cotidianas e que influenciam as relações pessoais, o funcionamento e a organização das instituições (família, escola, serviços de saúde, meios de comunicação etc.) Esse assunto não se esgota nessa reflexão, é necessário um engajamento de sociedade e instituições na luta por uma igualdade nos direitos e deveres dos responsáveis e um cuidar paterno mais ativo.

Referencias Bibliográficas:
Instituto Papai: www.papai.org.br
Rede Nacional Primeira Infância.www.primeirainfancia.org.br
Portal Brasil: http://www.brasil.gov.br/saude




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