Como encontrar uma vida com mais sentido

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QUANDO CRIANÇA, Ana tinha como objetivo ser mãe. Na adolescência, descobriu a dança. Formou-se bailarina. Nas viagens a trabalho, com o grupo de dança, os conflitos surgiam. E ela pensava que não havia sido preparada para lidar com aquilo. Com menos de 25 anos, já era mãe de um menino. O pequeno nasceu depois de uma cesárea desnecessária e Ana voltava a se questionar por que não se sentia preparada para aquele papel que, desde sempre, era seu grande querer. “Comecei a desconfiar da escola. Eu tinha a sensação de ter passado boa parte dos meus anos lá dentro e, de repente, percebi que pouco ou quase nada do que aprendi estava me ajudando a lidar com a vida.” A partir daí, ela começou a mergulhar no que seria uma formação focada, principalmente, na vida, e não no mercado de trabalho ou naquilo que a sociedade quer ou dita para cada um de nós. Hoje, Ana Thomaz está com 48 anos, mora em Piracaia, no interior de São Paulo, e viaja pelo país dividindo os aprendizados adquiridos em quase duas décadas de observação. Ela conversa com pessoas de olhares variados: “Posso falar para uma comunidade alternativa no Vale do Capão, na Bahia; ou para um grupo de executivos em São Paulo”. Em comum, todos estão se questionando: qual o sentido de tudo isso? Pergunta, aliás, que tem inquietado cada vez mais pessoas que buscam um caminho para a própria existência. VIDA SIMPLES foi atrás dessa resposta e encontrou uma mulher que sorri com os olhos.

 Como você define seus caminhos? 
Eu não os defino. Não faço planos. E isso é um conforto, é libertador. Porque ser livre é não ter que escolher, mas fazer apenas aquilo que é coerente para você. Lembro que, quando era criança, havia uma professora muito dura na escola, ela parecia não gostar do que fazia. Um dia, eu a vi indo embora sozinha e pensei: “Ela tem as próprias escolhas, ninguém a está obrigando a nada. Então por que ela continua a fazer algo de que não gosta?”. Eu tinha 5 anos e já começava a questionar o que fazia sentido ou não. E, com o passar dos anos, muitas coisas foram não fazendo sentido.

 Como é esse “não fazer sentido”com  que algumas pessoas, em algum instante, se deparam? 
É físico, é insatisfação, infelicidade com a vida. A gente segue um roteiro, faz a escola, a faculdade e de repente vai para o mercado de trabalho e percebe que não está feliz. Isso acontece porque passamos uma boa parte da vida aprendendo coisas que não servem para nada. Somos criados para um mundo condicionado. Mas costumo dizer que a vida é incondicionada. E, para lidar com essa frustração, a gente começa a se distrair. E o consumo é a principal das nossas distrações. Quando eu estava na escola, eu sentia que não me preparavam para o sentido da minha vida. Depois, na minha carreira como bailarina, eu viajava muito e tinha um relacionamento intenso com o grupo. E havia muitos conflitos. Eu pensava: “Nossa, como é que a gente não se preparou para isso? Sou adulta e não estou preparada para isso”. Quando me tornei mãe, senti a mesma coisa. Então passei a desconfiar da escola. Nomeei isso como desescolarização, que é tirar a escola de dentro de mim. Ela não me serviu para muita coisa, e me trouxe bastante frustração. Com meus fi lhos, eu não poderia fazer diferente. Eu não podia fazer com que eles frequentassem algo que eu não acreditava mais. Meu fi lho mais velho  pediu para sair quando terminou o fundamental. E minhas duas fi lhas estão sendo ensinadas em casa. 

E como elas aprendem? 
É muito interessante o que está acontecendo. E é também um risco. Mas foi algo que simplesmente foi acontecendo na nossa vida. Eu estou presente nas situações e elas aprenderam a ler e a escrever sozinhas. A mais velha domina a cozinha mais do que eu. Fui para o Cariri (Ceará), em setembro, e conheci seu Raimundo, um homem de 80 anos, analfabeto, que vive do cultivo da mandioca e tem uma banda de pífanos, que é conhecida no mundo todo – e existe há 200 anos. Ele me contou que às vezes está na roça e então aparece um passarinho. Ao ouvi-lo cantar, ele percebe a poesia e uma música começa a surgir na cabeça dele. Quando chega em casa, ele apresenta essa canção para o grupo de pífanos do qual  faz parte. Todos a desenvolvem, ensaiam e, quando se dão conta, estão tocando na Alemanha, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre. E ele me fala: “O que estou fazendo ali não é cultura. A cultura eu faço todo dia cultivando minha mandioca. Aí vem um passarinho e conversa comigo, aí vem a chuva, a onça. Isso é cultura. Ir para o palco é brincadeira. Porque a cultura está sempre comigo”. Seu Raimundo é analfabeto. E que diferença faria se ele soubesse escrever? Se as minhas fi lhas não soubessem ler e escrever estaria tudo bem. Mas elas sabem porque isso faz parte do meu universo. Seu Raimundo sabe compor como ninguém porque isso faz parte do universo dele. Então, o que faz parte do seu universo você vai aprender espontaneamente. 

Muitas pessoas querem mudar a rotina, apostar na intuição, mas têm medo da questão financeira. Como isso aconteceu para você?
 O dinheiro é fluxo, uma invenção do ser humano, assim como a comida e as relações. E eu tenho uma visão muito lúdica do mundo. Eu sei que algumas coisas eu posso fazer por troca e outras eu preciso de dinheiro, porque ele faz parte da nossa sociedade. O que acontece quando você muda seu olhar perante a vida é que altera a maneira como enxerga essa questão. O dinheiro, por exemplo, não precisa ser retido ou economizado. Isso não significa gastar tudo o que tem, mas você não deixa de gastar por receio da falta. E você também não usa esse recurso em um processo antivida. Não vai desperdiçar, torrar, gastar para preencher uma falta interna. O dinheiro é usado para potencializar algo. Hoje, eu cobro pelas palestras e pelos projetos que desenvolvo para diversos grupos pelo país. E o que ganho está sendo usado para a construção  de uma área no interior de São Paulo, um lugar onde as pessoas vão poder vivenciar essa forma de olhar a vida. O dinheiro vai para a construção do acesso à estrada, para o poço de água, para fazer a cozinha, a área de camping. Eu não cobro para as pessoas darem valor ao meu trabalho, mas para construir o Amalaya (nome do lugar, que significa “onde os milagres se realizam”). Eu estou arriscando esse caminho. Mas é algo que faço com responsabilidade, com lucidez, porque estou atenta a isso, aos meus fi lhos e à minha vida.

  Você é uma otimista em relação aos caminhos que a humanidade está tomando?
 Me chamam muito de otimista. Mas é que eu sou realista. E a realidade não é ideal. Ela é perfeita. Se eu estou numa situação desagradável é porque ela me é necessária, mesmo que você pense “Puxa, não precisava acontecer isso”. Não  precisava, mas aconteceu. Não precisava ocorrer no meu ideal. Mas, no real, precisava. E é preciso olhar para isso. Porque não tem nada que eu viva que não seja, da minha perspectiva, a apresentação de mim mesma. O problema é que a gente fi ca se iludindo com outras coisas e, dessa maneira, compensando a vida. E daí não se dá conta de que a vida está estagnada. Ou seja, existe uma falta na vida, mas eu não a reconheço. Fico consumindo, me distraindo.

  Você considera seu olhar de vida libertador? 
Sim, porque faço aquilo que faz sentido para mim. Não tem escolha. A escolha é ser feliz.  

O tempo todo você sorri com os olhos... 
Só o outro consegue ver isso. A gente só se desenvolve quando se relaciona com o outro. Nunca me fecho em um canto. Ninguém se torna uma pessoa mais tolerante sozinha. Ou alguém melhor no mundo. Nada acontece apenas em torno do meu umbigo. É sempre: “Essa situação me incomodou, deixa eu ver o que em mim ela reflete”.

  A gente nunca deve parar de questionar nossas verdades? 
Nunca. E eu gosto de ilustrar essa questão com uma história de uma experiência na qual cinco macacos foram colocados numa jaula com uma escada e um cacho de bananas no teto. Quando um macaco subia a escada para pegar a banana, todos recebiam uma ducha de água fria e violenta. E assim foi até condicionar esses animais a não pegar a fruta. Então os cientistas tiraram um animal antigo e colocaram um macaco novo na jaula. Quando ele tentou subir para pegar uma banana, os outros o impediram batendo nele. Não havia mais ducha ou castigo. Mas aquele comportamento já  estava incorporado. E assim foram retirando cada um dos cinco macacos originais, até não ter mais nenhum. E nenhum deles tentou mais pegar o cacho de bananas. Pronto, o paradigma estava instalado. O que as pessoas fazem? Resolvem conversar sobre “por que não conversar sobre pegar o cacho de bananas – assim não é preciso que todos fi quem vigiando”. E não se discute sobre o que importa: “Por que não estou pegando esse cacho de bananas?”. É assim que a sociedade funciona: não questiona. Quando a pessoa está angustiada com seus caminhos de vida, deve se questionar. Você só faz algo (por mais radical que pareça) quando isso passa a ser a coisa mais normal do mundo para você. E quem te indica isso é o seu corpo. Você tem a sensação física de que está fazendo o que é certo para você. Esse é o caminho da intuição, do instinto, da conexão, da afi nidade,  e não da especulação, da racionalidade. Você não precisa se encaixar numa profissão, num mercado de trabalho. Precisa, sim, entrar em contato com você e perceber o que existe de singular aí dentro. 

O que é a vida, afinal?
 Uma brincadeira, mas sem a ilusão de que brincar é algo irresponsável. Quando você observa uma criança brincando, percebe que ela tem um respeito enorme por aquilo, uma concentração, uma seriedade. Ela está vivendo aquilo. E ela não está fazendo aquela atividade para melhorar a coordenação motora, para se preparar para o mercado de trabalho, para vender algo. Ela está fazendo aquilo porque não tem escolha. Eu vejo a minha fi lha brincando com as bonecas, e é de uma inteireza... É brincadeira para o resto da vida. Mas é a brincadeira da infância séria, em que você se envolve.

Fonte: Vida Simples

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