O que fazer quando um paciente chega à terapia com um autodiagnóstico?

23:37:00 LàR Livre à Reflexão 0 Comments

Crédito da imagem: diálogos políticos 
Com os fenômenos da modernidade e da globalização, além do fácil acesso a informação por intermédio da imprensa, principalmente, pela internet, torna-se cada vez mais popular entre o senso comum o uso de nomenclaturas de transtornos mentais.

Bipolar, esquizofrênico, depressivo, psicopata, dentre outras psicopatologias fazem parte, cada vez com maior frequência, das conversas dos brasileiros. A familiarização destes conceitos pode ser perigosa, porque nem sempre as pessoas têm a informação científica correta sobre os sintomas e características de determinada psicopatologia.

Quase que corriqueiramente ouvimos as pessoas dizerem: “Acho que fulano é bipolar.” “Ciclana é histérica!” “Beltrano é psicopata!” “Zezinho só pode estar com depressão, não que sair de casa.” “Esse menino é autista não fala com ninguém.”

Parece que hoje em dia as pessoas estão levando ao pé da letra o adágio popular que diz: "De médico e louco cada um tem um pouco". A população faz uso destas expressões como se fossem especialistas e com uma facilidade absurda chegam a conclusão de um diagnóstico, sem muitas vezes nem saber do que se trata tal expressão.

O fato é que essa situação tem chegado de maneira cada vez mais expressiva na clínica.

Pacientes que ouviram falar de um transtorno mental ou pesquisaram no Google a respeito, logo se enquadram num escaninho da psicopatologia, assumindo pra si um diagnóstico.

Torna-se cada vez mais normal a cena do paciente que chega a consultório e diz:

- Procurei a psicoterapia porque estou com depressão.

- Estou aqui porque tenho TOC.

- Eu vim porque acho que sou esquzifrênico.

- Eu vim porque sou portador da Síndrome do Pânico e preciso me tratar.

Então, o que fazer quando um paciente chega ao consultório com um autodiagnótico?

           Eis algumas dicas práticas:

1.    Mostrar ao paciente que não se fecha um diagnóstico de uma hora para outra, antes, é necessário estudar o caso, analisar, observar, comparar, acompanhar e ter subsídios suficientes para se chegar a um diagnóstico bem feito.

2.   Explicar que mesmo um especialista pode ter dificuldades para ter uma conclusão diagnóstica.

3.  Esclarecer que um diagnóstico é feito com base em informações contidas nos dicionários e manuais de saúde mental, obedecendo a rigorosos critérios, passando por um diagnóstico diferencial.

4.   Procurar fazer com que o paciente entenda que nem todas as informações que estão na internet tem validade científica, por isso, a internet não pode ser tida com uma fonte segura, a não ser se a pesquisa for feita com base em artigos científicos.

5. Fomentar uma discussão sobre o estigma e os rótulos dos termos utilizados. Promover uma reflexão sobre os limites do normal e do patológico.

6.   Apresentar para o paciente a psicoterapia como uma proposta que está para além dos diagnósticos e das nomenclaturas psicopatológicas, é um trabalho que visa a pessoa e não a doença.

7.    Mostrar que você como terapeuta está interessado no todo e que a pessoa é maior do que a psicopatologia. Sendo assim, demonstrar que mesmo portando um transtorno psicológico, a pessoa não está fadada a se comportar de acordo com a regra impressa nos livros. O ser humano é muito maior do que qualquer classificação. É singular, imprevisível, complexo e surpreendente.

8.   Não entre em queda de braço com o paciente. Há pacientes que querem testar os conhecimentos do psicólogo, todavia, não se deve cair nesse jogo. O profissional é você, esteja muito seguro de si e procure fazer o seu trabalho.

Vale salientar, que em certos casos é preciso ter muita paciência, mais do que de costume. Cada paciente é um paciente, mesmo atendendo a inúmeros casos de pacientes que chegam ao consultório com um autodiagnóstico, nenhum deles será igual. Cada um se mostrará com suas peculiaridades e idiossincrasias.

No demais, é sempre bom ter em mente a frase dita pelo grande mestre Jung:

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”



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