Saberes compartilhados: horizontalizando práticas de atuação e cuidado.

00:00:00 Leonardo Maggioni 0 Comments


           
Essa reflexão surge a partir de uma experiência pessoal, que tem sido alvo de alguns estudos e questionamentos de como fazer psicologia, não do modo tradicional, que temos construído em nosso imaginário, digo a psicologia que eu acredito, uma ciência capaz de contribuir (veja bem, contribuir!!) na transformação da sociedade. Porém essa visão não me parece tão inclusiva na prática, sobretudo, em pesquisas onde os dados obtidos com o estudo me parecem ser a prioridade. Ele tem sua importância enquanto instrumento pro mapeamento de possíveis intervenções, mas, acredito que isso deveria ser o objetivo secundário nesse processo.

 “Cientista social, Casas Bahia e tragédia, gostam de favelado mais que Nutella” [1]

Recentemente fui convidado a participar de um projeto que como produto final resultará em um documentário com alguns episódios. Esse trabalho acontece em uma região com grandes índices de violência no RJ sobre todos os aspectos, física, emocional, estrutural e principalmente simbólica. Tenho conversado com algumas pessoas e venho refletindo muito sobre qual seria meu papel enquanto psicólogo nesse contexto e de que forma poderia verdadeiramente contribuir com pessoas. Nunca gostei da ideia de ir até determinado lugar e “usar” o outro como fonte de dados e ir embora, como se aquilo não produzisse efeito nenhum na população pesquisada. Um querido professor com quem compartilhei essa angustia me disse “que precisamos ouvir mais aqueles que, muitas vezes, denominamos como "objetos de pesquisa" e repensar em nossas práticas, como "devolutiva", "avaliação de impacto", "benefícios da escuta", entre outros. ”
Embora de posse dessas diretrizes, de cuidados que devemos ter ao intervir na vida do outro, mesmo assim a grande questão é, como fazer? Pois bem, na verdade eu também não sei, o que pretendo aqui é justamente cutucar essa “ferida” aberta e não tratada principalmente por profissionais de ciências humanas, talvez por não se sentirem de fato responsáveis por ela. Será mesmo? Em trabalhos complexos que demandam profissionais de diversas áreas, esse “assumir” responsabilidades nem sempre ocorre de modo natural. Existe um distanciamento entre os profissionais e principalmente população, onde “um” detém o poder e o outro participa como papel secundário.


Inteligência traz vaidade? [2]

Existem diversas dificuldades na concretização de trabalhos interdisciplinares, essas barreiras surgem das mais variadas formas (recursos, politicas, estruturas, formação e outras), entretanto o ponto que pretendo evidenciar aqui, me soa muito mais como uma questão de vaidade entre profissionais e até mesmo com a população atendida. Muitos ainda acreditam estar acima dos demais por possuir um determinado conhecimento técnico. Não se trata de uma banalização do conhecimento, o que (EU) entendo como melhor proposta é um saber horizontal, de troca de todxs, principalmente da população envolvida na intervenção, uma vez que elxs vivenciam diariamente aquelas demandas. Essa não verticalidade do saber é tratado no texto “Pesquisa-intervenção e a produção de novas análises”. [...]propomos metodologias coletivas, favorecendo as discussões e a produção cooperativa com a perspectiva de fragilização das hierarquias burocráticas e das divisões em especialidades que fragmentam o cotidiano e isolam os profissionais. A pesquisa-intervenção, por sua ação crítica e implicativa, amplia as condições de um trabalho compartilhado (ROCHA; AGUIAR, p. 71, 2003).  Nessa busca por práticas que compreendam os indivíduos como participantes ativos, e não como uma combinação de números ou meros coadjuvantes de uma intervenção, e essa proposta de pesquisa-intervenção vem na contramão disso, colocando os sujeitos envolvidos no mesmo nível de importância, onde todxs influenciam e são influenciados a todo momento, sem essa divisão hierárquica.

Certamente esse assunto não se esgota aqui, ainda é preciso muita discussão sobre o tema. Apenas pretendi compartilhar essa reflexão que acredito não se limitar a psicologia, já que em qualquer atividade que envolva a participação de outros é preciso que todxs tenham voz e participação ativa. Acredito ser um caminho a seguir, nós profissionais devemos ser facilitadores onde certamente encontraremos realidades diferentes a cada intervenção. Acredito ser de extrema importância essa empatia e assertividade no grupo. Como disse no início do texto a resposta para a pergunta eu não sei, mas acredito que se incomodar com isso já é um grande avanço. E você tem dado voz ao outro?


Notas:
[1] Trecho da faixa “Sucrilhos”, do álbum Nó na orelha.
[2] Trecho da faixa “Ainda há tempo”, do álbum Ainda há tempo.

Bibliografia:
CRIOLO. Nó na orelha. 2011.
CRIOLO. Ainda há tempo. 2006.
ROCHA, Marisa Lopes da; AGUIAR, Katia Faria de. Pesquisa-intervenção e a produção de novas análises. Psicologia: ciência e profissão, v. 23, n.4, p.73, dez. 2003






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