A PRESSÃO PARA FINGIR QUE NÃO SE IMPORTA

00:00:00 LàR Livre à Reflexão 0 Comments


Um dia eu decidi que, se um determinado cara não me mandasse uma mensagem até a quinta-feira seguinte, eu desistiria. E aí peguei um avião pra outro estado, só pra poder dizer, quando ele finalmente aparecesse, que tinha até esquecido que a gente ia se falar, que – sabe como é – tinha casualmente viajado com uma amiga, que fazia muitas outras coisas da minha vida. A palavra-chave aqui é “casualmente”. Não tem nada de casual nessa história, e provavelmente não tem nada de casual em nenhuma coisa que qualquer pessoa fez em nome de ser casual.
Geralmente, é possível perceber vários indícios desse tipo de comportamento desde o início da pré-adolescência. Todas as coisas mais bizarras que fizemos pra mostrar que na verdade não nos importamos, que está tudo muito bem, que nada nos atinge, que tudo é muito leve e fluido e tranquilo. Isso não vem do vácuo, seria impossível esse impulso de não se importar ter surgido espontaneamente em tantas garotas. O que aqui está em jogo é: em muitas relações, uma das pessoas se sente obrigada a fingir que não dá a mínima, e isso é uma violência estrutural. Em relações hétero, essa pessoa é geralmente uma mulher.
Não se importar é, no fim das contas, não exigir. Deixar claro como se sente pareceria dar poder à outra pessoa, mas é o contrário. Dizer exatamente o que quer, na hora que quer, é o melhor jeito de sair desse ciclo de se sentir humilhada e tentar ser casual pra não externar o sentimento. O mecanismo é assim: primeiro vem o sentimento de inadequação, depois a vergonha, e aí a vontade de sair desse lugar de inferioridade. Do nada você foi em festas só pra confirmar no Facebook, em bares só pra postar no Snapchat e, quando menos espera, está inventando datas limite imaginárias e pegando aviões pra outros estados. Talvez assim, no dia em que a pessoa venha te procurar e você possa dizer que nem se lembra, você ganhe.
Mas você já perdeu. Nessa hora, o poder de fazer precisamente o que quer na hora que quer já passou há muito tempo. Agora você faz o que você acha que parece independente fazer. A importância que essa relação tinha na sua vida acabou de aumentar, e muito. Deixou de ser apenas uma parte do seu dia a dia e passou a ser um motivador de todas as suas ações. A necessidade de não se importar consome tudo o que vê pela frente.
Suponho que isso tudo aconteça por uma mistura de fatores – desde a pressão de ser a cool-girl até a necessidade do outro de ter controle. Porque quando a gente impõe a nossa vontade, o outro precisa lidar com isso. Quando a gente já se sentiu tão diminuída que faria qualquer coisa pra sair dessa posição – mesmo que seja, na verdade, um sofrimento gradual –, é só mais submissão e obediência. Mais sensação de que demonstrar que se importa seria humilhação.
O único jeito de recuperar o respeito a si mesma é entender que você não se colocou nesse buraco por vontade própria. Uma outra pessoa te empurrou – com um forte auxílio de toda uma estrutura social que inferioriza mulheres e seus sentimentos. Pra se sentir com poder sobre si mesma, só se dando o direito de fazer o que realmente quer. E se não for bom o suficiente pra outra pessoa, é melhor sofrer de uma vez só do que ficar se perdendo aos pouquinhos. Talvez dizer “oi, essa é a minha vontade, é isso que eu estou procurando, e eu não vou aceitar menos” seja menos autodestrutivo do que dizer “nossa, tinha esquecido que a gente ia se ver, acabei viajando”, e passar mais semanas esperando ser procurada de novo.

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