“Verdade absoluta”: duas formas de crer

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Pode-se lidar com a ideia de verdade absoluta de duas formas diferentes:

A primeira pode ser exemplificada com o que fazem os pastores de igreja, ou alguns professores universitários, que pescam trechos de um livro e simplesmente os apresentam. Esta apresentação ocorre sem que se insira o trecho na história do seu pensamento.

Mesmo uma ideia filosófica, a-histórica por definição, tem uma certa história, ou um contexto. Ela surge por inspiração em ideias apresentadas em momentos anteriores, e também pela experiência dos seus autores. A ciência quer descrever um fenômeno, e dar a sua lei geral e universal. A filosofia quer doar um sentido para um fenômeno, de modo a que se possa lidar com ele, ou lidar com ele de uma outra forma.

             De uma ideia científica importa mostrar as ideias que a antecederam e as que a sucederam no tempo, para que se explique o motivo da sua validade em determinado momento. De uma ideia filosófica, as idéias anteriores estão presentes como elementos com os quais se conversa (a filosofia é uma conversa com a própria tradição literária da filosofia) na atividade do pensamento, e esta atividade ocorre fora do tempo¹.

A história de uma ideia filosófica é o próprio percurso do seu pensamento. E este percurso está tanto em um autor quanto na tradição literária da filosofia. Um trecho de um livro de filosofia é uma ilustração de um pensamento maior. Há professores que apresentam uma ideia de maneira "chapada", presa ao trecho do livro, sem mostrar ao aluno o caminho daquele raciocínio. A ideia fica como se fosse válida por si só, como uma verdade absoluta.

Quantas vezes você já não ouviu alguém dizer, ou você mesmo já disse, "não existem verdades absolutas", sem se dar conta da contradição inerente a esta afirmação? Dizer esta frase é muito pouco perto do que pode fazer um bom professor de filosofia quando mostra uma reflexão sobre o fim do fundacionismo, e sobre o que a filosofia pode fazer, hoje. É uma frase que aproxima "relativistas" de absolutistas. Ela é de quem acredita, e quer fazer crer, em verdades absolutas, mesmo que pareça negá-las.

Agora, é possível falar em verdade absoluta num contexto pós-nietzscheano, ou seja, sem que se mantenha uma ideia de verdade baseada num fundamento metafísico. Os sons que se escuta no útero materno fazem a pré-história de uma subjetividade. São as vibrações que formarão a sua sensibilidade sensorial para o que é bom e o que é ruim. Após o nascimento, o anjo da guarda será a continuidade desta voz. Esta voz conselheira é o nosso outro polo, nosso duplo. Na esferologia de Peter Sloterdijk, um sujeito é uma emergência de trocas de ressonâncias entre pólos, formados pelo anjo, pela criança, pela mãe e mais um, que compõem um espaço protegido e climatizado de intimidade. Somos no mínimo dois².

Os primeiros sons que ouvimos nos guiarão por toda a vida. Quando uma mãe diz "está tudo bem" à criança que cai e rala o joelho, o que ela está fazendo é transmitir uma verdade absoluta, um saber no qual a criança acredita sem que se comprove sua veracidade. A criança acredita no que diz a mãe por que o som daquela voz a faz se sentir acalentada e protegida, e podendo ter esperança.

Livros clássicos como os da Bíblia, os de Homero e de Platão, por exemplo, são formadores da cultura ocidental. Através deles, conhecemos nossos hábitos, valores, regras sociais e também os primeiros movimentos de formação da nossa subjetividade. Estes livros são vozes que se ouve a milhares de anos, e que desde Roma compõem uma ideia de formação integral e universal do homem, um humanismo³.

A leitura deles é mais do que uma obrigação para profissionais da área de humanidades: é obrigatória para qualquer um que queira superar uma condição de juventude, ou seja, de puro impeto de crítica, para chegar a ser adulto, que tempera o ímpeto com a reflexão, podendo temperar a crítica com a fé. O adulto quer modificar o que considera errado, mas sabe descansar num porto seguro. Quando não sabe fazer ambas as coisas, permanece preso na juventude.

Que se deve ler estes livros é uma verdade absoluta que há milênios os homens dizem a si mesmos. O que se diz neles já foi usado como sustentação de metafísicas. Mas, numa posição pós-nietzscheana, em que se sabe que o que se pode dizer são perspectivas deste mundo, esta minha perspectiva chama a atenção para as vozes que estão nos primórdios de um indivíduo e do homem e que, por isso mesmo, deseja para eles autoconhecimento e capacidade de melhoria de si mesmos.

Este segundo uso da expressão "verdade absoluta" não se refere a absolutos fora do tempo e do mundo. Refere-se a algo que, hoje, como em há muito tempo, é formador e essencial para cada indivíduo e homem.

Há, em suma, uma forma absolutista de se crer em verdades absolutas. E há uma forma ao mesmo tempo livre, contextualizada e pragmática.


1 - Peter Sloterdijk. Morte Aparente no Pensamento. Relogio D'Água.
2 - Spheres. Bubbles. Mitpress.

3 - Regras Para o Parque Humano. Estação Liberdade.

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