Quem se choca não está na escola

00:00:00 Thais Lopes Trajano 0 Comments


Dificilmente o discurso sobre a violência é totalmente honesto. Ou seja, dificilmente o discursador não tem o que confessar. Também é difícil o discurso sobre sexo. O discurso sobre violência vestida de sexo, então, causa muito mal-estar. O estupro choca, e o que dizem sobre ele também causa reações de choque.

Sobre o estupro da moça por trinta e três rapazes (http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/adolescente-diz-a-policia-ter-sido-dopada-e-estuprada-por-33-homens-26052016), as pessoas disseram-se chocadas com o fato em si. Disseram-se, também, chocadas com o discurso que aponta a moça como culpada do fato, que é um discurso, então, que endossa o estupro.

Se o estupro, e a sua reiteração por meio de discurso, é uma ação que se empreende por ter se retirado o outro da condição de humano (https://www.facebook.com/ghiraldelli.filosofia/videos/1039981892705320/?pnref=story.unseen-section), podendo ele ser tratado como qualquer coisa (diferente de ser tratado como coisa, por exemplo, no momento do sexo), uma proposta para a sua diminuição é o fortalecimento do que justamente diz respeito à condição do humano: a educação humanizadora, inseridora na cultura. Isso, para se efetivar, requer boa escola. Sem boa escola, não há barreiras para um ato desumanizador como um estupro.

A escola é o lugar onde os mais velhos transmitem o melhor da cultura para os mais novos, em elementos científicos, filosóficos, religiosos, literários e comportamentais. Ao começar a receber estas referências, a criança poderá olhar para as próprias experiências. A criança olhará para a vida que leva com sua família e comunidade. A partir dessa mirada, ela poderá modificar coisas nela mesma. Há, aí, um primeiro momento de espanto com o mundo, e um segundo, de espanto consigo mesmo, ambos causados pela escola. E falo de espanto, não de choque.



Uma pessoa pode perguntar se não é precoce mostrar a uma criança de cinco anos um livro com um casal de patos machos. A premissa é de que criança se chocaria. Ou será que o choque, aqui, está com o adulto, diante do espanto e do interesse da criança? Na escola, uma história com um casal de patos machos espantaria a criança que tem pai e mãe, e este espanto seria tratado como um começo de curiosidade a respeito dos possíveis casais e também do que ela quer para si mesma. Agora, na família ou no grupo de amigos, as chances são que a criança seja ensinada a chocar-se com um casal gay, ou seja, a repetir o comportamento dos pares, e entrar num estado que impede a reflexão.

Sem boa escola, ocorre o ato desumanizador. E também fica-se entregue ao estado de choque, por este ato. Um ato de estupro centra seu interesse completamente na busca por chocar, e a partir daí exercer poder.


Fora da escola, as pessoas entram em estado de choque. Choram de dor, gritam por vingança. Entendem aquele ato como machismo, igual a uma cantada na rua. Param, então, de raciocinar e não distinguem mais nada. Pedem a castração química do estuprador. Incitam a caça aos estupradores. Acham ótimo que ele seja estuprado quando for para a cadeia. Entram pelo sentido contrário ao do discurso feminista, dizendo que a maior defesa da mulher é uma arma na mão. Dizem que a mulher que se veste sensualmente é puta e merece mesmo ser estuprada. Estar à mercê do ato desumanizador, chocar-se com ele, é fazer com que a desumanização prossiga em você e no que você passa a querer que aconteça aos outros.

A humanização proporcionada pela escola é uma interrupção do choque, do desejo de vingança e da violência. Na escola, a criança pode se espantar com o mundo, no sentido de achá-lo intrigante e atraente. Ela espanta-se consigo própria, reflete e muda detalhes ou bastante do próprio comportamento. Convive com pares igualmente interessados no mundo, não em cuidar para que o mundo não ocorra. E aprende a lidar com a maldade, de modo a buscar a justiça, não a vingança. A buscar a diminuição da violência, não o seu aumento.





Texto de Thiago Ricardo de Mattos

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