O homem cansado e o sol

00:00:00 LàR Livre à Reflexão 0 Comments



Aquele que tem algo para dar o faz sem requisitar nada em troca. O sol. O rei. O joalheiro. O escritor. Eles lançam seus produtos e sorriem. Não param para ver as reações das pessoas. 

Quando lhes chega algum elogio, eles agradecem, enquanto dizem para si mesmos: "sim, eu já sei disso". O que alguém tem a lhes dizer sobre as coisas que eles lançam é menos importante do que essa certeza interna deles. 

Uma moça de 19 anos está em seu primeiro emprego. Ela fez o treinamento, passa pelo segundo mês. O trabalho a deixa desconfortável, ela é obrigada a fazer o que não gosta. 

Desde antes começar ela dizia para si mesma que faria tudo direitinho. Agora passa por sua cabeça conseguir um outro lugar para fazer isso mesmo, tudo direitinho. Um lugar em que ela não se sinta desconfortável. 

O jovem é como o sol, que manda seus raios com esbanjamento, e permanece intocável. Qualquer sinal contrário ao que ele faz, qualquer sinal de censura, é um incômodo. 

Nietzsche apresenta o tipo forte como aquele que se lança energicamente sem interrogar-se quanto ao que faz, sem ter a reflexão auto-censuradora do fraco. 

Um cara já passado dos trinta diz para aquela moça que ela não deve desistir facilmente. Ele já trabalhou muito sem se importar com o pagamento que recebia. Mas sempre lhe importou o que lhe diziam, ou melhor, o que ele mesmo se dizia: era preciso fazer o bem às pessoas, para ter o sorriso delas. 

Ele não foi um jovem como aquela moça. Faltou a ele ter dado de si, por si mesmo. Feito o que queria, e ter na própria sensação de fazer algo bem feito o seu pagamento. Aonde isso teria dado? Eu não sei. 

Não sei se com quinze anos disso hoje ele estaria sendo bem pago por "trabalhar com o que sonhou". Talvez ele estivesse no mesmo trabalho em que está hoje. Mas ele não estaria dizendo à moça para ela não desistir facilmente daquele trabalho, nem de nenhum outro. Não há trabalho que possa recompensar suficientemente uma pessoa que é como dizem, "de brilho próprio". Uma pessoa assim nem pensa nisso. 

O cara estaria dizendo à moça para ela não deixar-se interromper por ninguém. Nem por si mesma, se ela estiver buscando a aprovação dos outros. Ela deve ser como ela é, e expandir-se cada vez mais.

Um dia ela chegará aos trinta, aí sim com um pé atado numa família, pela corda do amor. Estará preocupada com o trabalho. Mas se lembrará dos tempos em que cruzou o céu rápido feito raio.


Ps.s: Neste texto inspiro-me nas ideias de Peter Sloterdijk, apresentadas pelo filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. Leia "A sociedade da generosidade de Peter Sloterdijk: http://ghiraldelli.pro.br/filosofia/sociedade-generosa-de-peter-sloterdijk.html


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