Ouro, prata ou bronze.

00:00:00 Leonardo Maggioni 0 Comments



Aproveitando esse período de Jogos Olímpicos, essa semana proponho esse tema sobre vencer ou perder e foi justamente durante uma competição que me ocorreu essa reflexão e por isso resolvi dividir com vocês.
Quando se trata de disputa temos algumas frases repetidas quase sempre para justificar uma derrota. “Vencer é ótimo, mas é na derrota que se cresce”. “Perder ou vencer, o importante é participar”. “O importante é competir”. Mas o que de sincero será que tem nesses clichês?
Geralmente nas competições esportivas só temos um vencedor ou equipe, isso necessariamente implica que a maioria perdeu. Perdeu? SIM, se analisarmos pelo prisma de uma cultura que valoriza apenas a vitória. Mas quantas vitorias de superação, de conquistas de direitos principalmente de mulheres ao poderem disputar os Jogos, o vôlei feminino que hoje talvez seja a grande esperança de conquista de medalha para o Brasil, só pode participar em 1980, o próprio criador do Jogos modernos o Barão de Coubertain era um dos maiores adversários da participação feminina nos Jogos Olímpicos.  

Conheço pessoas que dizem ver mais valor em uma medalha de bronze do que a de prata, alegando que o bronze é fruto de uma vitória e uma capacidade de recuperar e superar a derrota que o impediu de disputar a final, enquanto a prata é fruto de uma derrota no momento decisivo. Não gosto muito dessa análise, acredito que ser simplista demais e um tanto cruel tanto para quem ganha quanto para quem perde.

Saber ganhar! Saber perder!
 A vitória costuma mascarar falhas, raramente refletimos onde ganhamos, já na derrota é comum tentar descobrir “onde” perdemos. E justamente aí pode está uma vantagem da derrota, ainda que possa parecer amargo, ela pode te fazer melhorar. O grande problema é que nessa sociedade competitiva a história quase sempre é contata a partir da perspectiva do vencedor.
          Não gosto de perder! Não aceito nem no par ou ímpar. Esses são outros clichês usados para justificar algum ato de descontrole. A derrota em si não define ninguém a forma como se reage a ela sim.  Quem não se lembra da famosa mordida de Mike Tyson na orelha de Evander Holyfield enquanto perdia a luta. Por outro lado, o pugilista norte-americano Floyd Patterson foi derrubado sete vezes pelo adversário em uma luta que valia o título mundial, antes do árbitro interromper a luta. Em uma entrevista, dias depois, Patterson disse: “Eles falaram que eu fui o homem que mais foi derrubado, mas eu também fui o que mais me levantei”.  Depois disso Patterson foi campeão olímpico, bicampeão mundial na sua categoria.
         E assim seguimos. Vitorias e derrotas acompanham todxs na construção de quem somos. Para conseguirmos aquela vaga de emprego, alguns foram reprovados, para seu time ser campeão outros tantos não foram. E assim vice-versa. O que muda é a forma de nos relacionarmos com essas etapas.
       Para finalizar gostaria de deixar uma reflexão que os filósofos Mario Sergio Cortella e Clovis de Barros Filho apresentam no livro “Ética e Vergonha na Cara”.
Em uma corrida de cross-country, o queniano Abel Mutai, medalha de ouro nos três mil metros com obstáculos em Londres, estava a pouca distância da linha de chegada e, confuso com a sinalização, parou para posar para fotos pensando que já havia cumprido a prova. Logo atrás vinha outro corredor, o espanhol Iván Fernández Anaya. E o que fez ele? Começou a gritar para que o queniano ficasse atento, 10 mas este não entendia que não havia ainda cruzado a linha de chegada. O espanhol, então, o empurrou em direção à vitória. Bom, afora o ato incrível de fair play, há uma coisa maravilhosa que aconteceu depois. Com a imprensa inteira ali presente, um jornalista, aproximando o microfone do corredor espanhol, perguntou: “Por que o senhor fez isso? ”. O espanhol replicou: “Isso o quê? ”. Ele não havia entendido a pergunta – e o meu sonho é que um dia possamos ter um tipo de vida comunitária em que a pergunta feita pelo jornalista não seja mesmo entendida –, pois não pensou que houvesse outra coisa a ser feita que não aquilo que ele fez. O jornalista insistiu: “Mas por que o senhor fez isso? Por que o senhor deixou o queniano ganhar? ”. “Eu não o deixei ganhar. Ele ia ganhar”. O jornalista continuou: “Mas o senhor podia ter ganho! Estava na regra, ele não notou...”. “Mas qual seria o mérito da minha vitória, qual seria a honra do meu título se eu deixasse que ele perdesse? ”. E continuou, então, dizendo a coisa mais bonita que eu li envolvendo a questão da ética do cotidiano: “Se eu ganhasse desse jeito, o que ia falar para a minha mãe? ”.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CORTELLA, Mário Sergio;BARROS FILHO, Clóvis de. Ética e Vergonha na Cara. 1. Ed, São Paulo: Editora Papirus 7 Mares, 2014.

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