A professora e a esperança

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Eis que, um dia, um filho diz para o seu pai: "vou contar tudo para o seu pai!". Se há uma força superior à do pai, o pai deixa de ser tão forte. 

Viver em civilização é renunciar a satisfação de instintos sexuais e de agressividade. É, também, estar protegido da vida em natureza, em que os instintos de outro homem entrariam pela minha porta. Freud nos conta isso, em O Futuro de uma Ilusão. A natureza é a enormidade do mar, e também a selva impiedosa. O pai e os deuses surgem na infância de um indivíduo, e na infância da espécie, como o que obriga à repressão dos instintos, mas, também, oferecem a sensação de proteção contra as feras e o destino. 

Não faz muito tempo, no Brasil, a professora era importante em sua comunidade. As professoras eram figuras conhecidas: acompanhavam a vida inteira de cada indivíduo, pois ensinavam a criança, na sala, o jovem, na rua, e o adulto, nas reuniões comunitárias. Não se tratava de serem inesquecíveis: elas nunca se ausentavam da convivência. 

As professoras eram figuras respeitadas: o adulto dizia à criança, ao jovem e a si mesmo, que a palavra da professora era a verdade e a lei. Essa afirmação, feita em casa, fortalecia a própria autoridade dos pais. Fortalecia a própria autoridade sobre si mesmo. O indivíduo se sentia apto a fazer a árdua tarefa cultural de conter seus instintos antissociais e trabalhar, na compreensão de Freud. Ou seja, o individuo poderia exercitar a intelectualidade, o conhecimento e a fruição das suas emoções e a melhorar-se moralmente. A professora estava ali para mostrar-se como a realização disso, e que ela era feliz em ajudar as outras pessoas a conquistarem-no. 

A professora era admirada: como é ser uma pessoa melhor, intelectual e moralmente, além de mais feliz consigo mesma e com ótimas relações? A comunidade fazia essa pergunta à professora. Ela era como um ponto terreno de um ideal.

Se exagero, embora não me distancie muito do que um dia já existiu entre nós, é para que voltemos a querer ter este tipo de pessoa. Mais do que isso: é para nos termos em tão alta conta a ponto de nos vermos capazes de sermos assim, professores de verdade, e não pessoas que destroem seus idolos, seus ideais, sua cultura, e matam umas às outras. 

Freud conta que, acima dos deuses, havia o Destino. A natureza vencia, mas a criança não precisava lembrar-se disso a todo momento, pois o pai, ou ainda os deuses, permaneciam ao lado delas, dando-lhes a ilusão de proteção. Crescíamos acreditando que tudo daria certo. E dava! A morte de uma professora a fazia sempre ser lembrada, e a inspirar decisões, e dava entrada à nova professora, tão especial quanto a anterior. 

A criança ou adulto que, hoje, dizem que há alguém acima da professora, levam-na à morte precoce, ao esquecimento. Na verdade, se o desejo de desrespeitar, de roubar, de matar e de destruir, que aparecem na má política e no nosso descarte ambiental e de seres humanos, forem as coisas mais importantes, a professora nem chega a nascer.


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