As pedras de um analista

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No consultório com gabinete contíguo, de Freud, havia livros. Também inúmeras placas, estátuas e outros objetos antigos. Ele dizia, brincando, ter lido mais sobre arqueologia do que psicologia. Acompanhava as últimas descobertas arqueológicas. No mediterrâneo estavam suas raízes mais profundas, dizia, e como não poderia viajar em busca delas, mantinha-as perto, o quanto fosse possível. Com seus pacientes também se comportava como um arqueólogo, desencavando pedras e descobrindo tesouros há muito escondidos. Seus amigos presenteavam-no com objetos deste tipo. Seus pacientes não se sentiam na sala de um médico.

As paredes do consultório de um analista têm prateleiras cheias de livros. Há os adquiridos durante a faculdade. Nem todos os livros desta época estão ali: foram suprimidos os de qualquer assunto que não fosse psicanálise. Os adquiridos posteriormente também só puderam estar ali se se mantivessem nessa área de interesse, a única que poderia aparecer, para contar a história de formação de uma analista. 

Freud lia sobre figuras históricas. Comovia-se com os conflitos psicológicos apresentados em óperas, algumas das quais, após ter assistido por mais de trinta vezes, tornavam-se objetos revestidos por diversas mãos de verniz e poeira. Fazer a história deles, ou de um paciente, era descobrir tanto sua origem como seus acidentes. 

O psicanalista encontra nos livros de psicanálise e, em bons casos, também de mitologia, filosofia e literaturas, as imagens e ideias, de biografias ou de teorias, que relê em grupos de estudo e em seus próprios pensamentos. Freud, ao escrever, acariciava suas estátuas, o suficiente para brevemente descortinar algo. Partes delas, dos pacientes e dele mesmo permaneciam inacessíveis. 

Na minha estante há Iliada, que muitos me dizem ser difícil. Respondo que não, não é difícil, no sentido em que tomam algo por difícil: dependendo da edição, é possível de ler, sendo escolarizado e tendo alguma paciência. 

Este livro permanece bastante inacessível, para mim. Eu a li, e entendi. Um analista entende tudo o que um paciente fala, por algumas seções. Essas duas coisas não querem dizer nada. Elas precisam novamente ser lidas, em parceria. As descobertas da leitura de livros como esse, e de falas de pacientes, não põem fim à sensação de que há algo a se entender. 

Quando criança, tive alguns bonecos. De um deles eu venho me lembrando: era um rinoceronte com corpo de um homem. Os olhos eram raivosos. Eu passava um tempo olhando para aqueles olhos. Eu queria ver a raiva deles. Eu queria chegar no limite da sua raiva, quando eles ficavam com menos movimento, e pareciam bons. Para ver isso, eu precisava não ver as pálpebras, os músculos que mostravam a intenção. Devia ser apenas o redondo dos olhos vermelhos. Coelhos têm olhos vermelhos. Vampiros e alguns monstros, também. Os olhos, enfim, não param de mostrar coisas. 

Freud olhava atentamente para seus pacientes. Que ele os escutava atentamente, já se comenta bastante. Nós, livrescos, dizemos que o analista baseia-se na escuta: de professores, supervisores, seu próprio analista e pacientes. Mas falta atenção aos objetos de um analista. 

Uma análise, leitura, começa no olhar. É através dele que nos prendemos amorosamente. Aí, então, pode-se deixá-lo de lado, e escutar e falar.


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